The Derm Files #02
Uma leitura clínica sobre conexões que passam despercebidas.
Quando um paciente chega ao consultório com queixa de queda de cabelo, algumas perguntas fazem parte da avaliação de rotina: o que mudou nos últimos meses, como está a alimentação, se houve algum evento estressante.
Mas há um conjunto de perguntas que pode mudar completamente o raciocínio clínico e que, muitas vezes, não é feito:
Você sente coceira no couro cabeludo?
Tem dor ou ardência?
Percebe descamação?
A resposta positiva para qualquer uma dessas perguntas coloca a dermatite seborreica no diagnóstico diferencial. E, quando presente e não tratada, pode contribuir para a queda em alguns contextos clínicos.
O que é a dermatite seborreica
A dermatite seborreica é uma condição inflamatória crônica que afeta áreas ricas em glândulas sebáceas como o couro cabeludo, face, região retroauricular e tronco. No couro cabeludo, manifesta-se com descamação, oleosidade, prurido e, em alguns casos, eritema.
É uma das dermatoses mais prevalentes, afetando cerca de 1% a 5% da população, com pico na vida adulta.
O papel da Malassezia
O principal agente envolvido na fisiopatologia da dermatite seborreica é a Malassezia spp., fungo comensal da pele.
Em determinadas condições como aumento da oleosidade, alterações imunológicas ou predisposição individual, ocorre sua proliferação. Esse processo desencadeia uma resposta inflamatória local, com liberação de citocinas que alteram o microambiente do folículo piloso.
O resultado pode ser uma inflamação perifolicular capaz de interferir no ciclo capilar.
Como a inflamação pode contribuir para a queda
Os mecanismos são múltiplos e podem coexistir.
A inflamação local pode alterar o ciclo folicular, o prurido leva à coçadura repetida, gerando trauma mecânico, a oleosidade mantém o ambiente inflamatório ativo e o estresse, frequentemente associado ao quadro, pode atuar como fator adicional.
O resultado costuma ser uma queda difusa, leve a moderada, geralmente reversível com o controle da inflamação.
O erro mais comum (e menos comentado)
Um dos padrões mais frequentes no consultório: pacientes que, ao perceberem a queda, reduzem a frequência de lavagem do cabelo.
A lógica parece intuitiva: lavar menos para perder menos.
Mas, na prática, o efeito tende a ser o oposto.
A redução das lavagens favorece o acúmulo de sebo, que serve de substrato para a proliferação da Malassezia. Isso perpetua a inflamação e, consequentemente, pode agravar a queda.
Na maioria dos casos, a orientação correta é manter a frequência adequada de lavagem, associada a produtos que controlem a oleosidade e a flora fúngica.
Coexistência com outras condições
Um ponto crítico no manejo: a dermatite seborreica raramente aparece isolada em pacientes com queda significativa.
É comum a coexistência com alopecia androgenética, na qual a inflamação do couro cabeludo pode acelerar a miniaturização folicular e com eflúvio telógeno, em que fatores sistêmicos já comprometeram o ciclo capilar.
Tratar apenas a queda, sem identificar e controlar a dermatite seborreica, pode limitar o resultado.
Da mesma forma, tratar apenas a seborreia sem investigar outras causas pode deixar o quadro incompleto.
O que muda com o diagnóstico correto
Quando a dermatite seborreica é identificada e tratada com antifúngicos tópicos, shampoos adequados e, em casos selecionados, anti-inflamatórios, o controle da inflamação pode refletir em melhora da queda associada.
Não se trata de cura.
É uma condição crônica, com tendência à recorrência.
O objetivo do tratamento é o controle e, quando bem conduzido, esse controle faz diferença clínica real.
Investigar antes de tratar.
Couro cabeludo inflamado e queda de cabelo raramente devem ser analisados isoladamente.
E é essa conexão que, muitas vezes, define se o tratamento vai funcionar.
–
Dra. Ana Carolina Madia
Dermatologia Clínica & Tricologia
CRM-SP 182.593 | RQE 120.682
⚠️ Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individualizada.
Referências
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3. Dall’Oglio F, Nasca MR, Gerbino C, Micali G. An overview of the diagnosis and management of seborrheic dermatitis. Clin Cosmet Investig Dermatol. 2022;15:1537–1548.
