Dermatite atópica: quando a pomada não está mais funcionando

Nem toda dermatite atópica melhora apenas com pomadas. Entenda quando a doença exige uma abordagem mais ampla e quais tratamentos mudaram o cenário nos últimos anos.


Tem uma cena que se repete no consultório.

A pessoa chega com anos de história. Corticoide tópico, hidratante, anti-histamínico para dormir. Melhora um pouco, piora de novo. O ciclo não termina.

E a coceira, essa coceira constante, que perturba o sono, que constrange, que isola, continua.

Essa não é uma situação de resignação. É uma situação de atualização.


O que é a dermatite atópica de verdade?

A dermatite atópica, também chamada de eczema atópico, é uma doença inflamatória crônica da pele.

O sintoma mais conhecido é o prurido intenso, mas ela vai muito além disso. Lesões avermelhadas, pele ressecada, espessamento da pele em áreas de dobra, como cotovelos e joelhos, e uma barreira cutânea que não funciona adequadamente fazem parte do quadro.

Quando essa barreira está comprometida, a pele se torna mais vulnerável a irritantes, alérgenos e infecções.

No Brasil, estima-se uma prevalência superior a 2.600 casos por 100.000 habitantes. É uma condição comum e ainda subestimada em sua gravidade.

O que muitos pacientes não sabem é que a dermatite atópica possui diferentes níveis de intensidade. E nos casos moderados a graves, pomadas e cremes, embora fundamentais, nem sempre são suficientes sozinhos.

Por que a pomada não resolve tudo?

Os tratamentos tópicos continuam sendo a base do tratamento.

Corticosteroides, tacrolimo e pimecrolimo são ferramentas importantes e seguem tendo papel fundamental no controle da doença.

Mas existe um limite.

A dermatite atópica moderada a grave não acontece apenas na pele. Ela é impulsionada por uma inflamação do sistema imunológico, com participação importante das interleucinas IL-4 e IL-13

Por isso, tratar apenas as lesões pode não ser suficiente. É como apagar a fumaça sem desligar o fogo.


O impacto que vai além da pele

Esse é um dos aspectos mais importantes da doença (e também um dos mais negligenciados).

Em um estudo com adolescentes com dermatite atópica moderada a grave, 29% relataram sentir vergonha constantemente, 42% apresentavam oscilações importantes de humor e metade tinha baixa autoestima persistente. Além disso, 29% relataram episódios de depressão.

A coceira não afeta apenas a pele.

Ela interrompe o sono, prejudica o desempenho escolar e profissional, interfere nos relacionamentos e compromete a qualidade de vida.

Ainda assim, estima-se que apenas cerca de 8% dos pacientes com dermatite atópica moderada a grave utilizem terapia sistêmica.

Ou seja: existe um número significativo de pessoas convivendo com sintomas importantes sem acesso a tratamentos potencialmente transformadores.

O que existe além da pomada?

Nos últimos anos, o tratamento da dermatite atópica passou por uma transformação importante.

Hoje existem terapias direcionadas capazes de atuar diretamente nos mecanismos inflamatórios da doença.

> Dupilumabe

O dupilumabe é um imunobiológico que bloqueia as interleucinas IL-4 e IL-13, consideradas centrais na inflamação da dermatite atópica.

Atualmente, é considerado uma das principais opções para pacientes com doença moderada a grave.

No Brasil, o medicamento possui aprovação da Anvisa e está disponível no rol da ANS.

Um dado relevante é que seu uso já é aprovado para crianças a partir de 6 meses de idade, ampliando as possibilidades terapêuticas para os casos mais graves na infância.

> Inibidores de JAK

Outra classe que ampliou as opções terapêuticas são os inibidores de JAK, como o upadacitinibe e o abrocitinibe.

Esses medicamentos atuam bloqueando enzimas envolvidas na cascata inflamatória da doença e costumam apresentar respostas rápidas e expressivas em pacientes selecionados.

Por outro lado, exigem monitoramento mais cuidadoso e avaliação individualizada, especialmente em pacientes com fatores de risco cardiovascular ou outras comorbidades.

E o acesso a esses tratamentos?

Nos últimos anos, houve avanços importantes também no sistema público de saúde.

O dupilumabe foi incorporado ao SUS para crianças com formas graves da doença, enquanto o upadacitinibe passou a ser disponibilizado para adolescentes em situações específicas. Além disso, medicamentos como tacrolimo, mometasona e metotrexato também passaram a integrar as opções terapêuticas disponíveis.

Ainda existem desafios importantes de acesso, especialmente para adultos com formas graves da doença, mas o cenário atual é muito diferente daquele observado há poucos anos.

Você não precisa aprender a conviver com a coceira. 🤍


⚠️ Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individualizada. Consulte um dermatologista.

Dra. Ana Carolina Madia
CRM-SP 182.593 | RQE 120.682


Referências

  1. Consenso sobre o manejo terapêutico da dermatite atópica — Sociedade Brasileira de Dermatologia: atualização sobre fototerapia e terapia sistêmica. Anais Brasileiros de Dermatologia, 2023.
  2. Brasil. Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (CONITEC). Abrocitinibe, baricitinibe, dupilumabe e upadacitinibe para o tratamento de adultos com dermatite atópica moderada a grave. Brasília, 2024.
  3. Gomes BS, Moisés LMN, Tavares HKS. Dermatite atópica: revisão das terapias emergentes e impacto imunológico. Journal Archives of Health, v.6, n.4, 2025.
  4. Vega C. When Topicals Fail for Atopic Dermatitis, What’s Next? Medscape Family Medicine, maio 2026.