Nicotinamida: quando a vitamina B3 entra na prevenção do câncer de pele.

Uma vitamina conhecida há décadas passou a ganhar espaço nas pesquisas sobre prevenção do carcinoma basocelular e espinocelular. Entenda para quem ela pode fazer sentido e por que ainda não é indicada para todo mundo.


Existe uma vitamina barata, disponível em farmácias e utilizada há décadas que vem chamando cada vez mais atenção na prevenção de alguns tipos de câncer de pele.

Ela se chama nicotinamida, uma forma da vitamina B3.

Nos últimos anos, estudos importantes mostraram resultados promissores em pacientes com alto risco de desenvolver novos carcinomas cutâneos. Mais recentemente, uma publicação na JAMA Dermatology reforçou o potencial dessa estratégia ao demonstrar que ela pode ser uma abordagem custo-efetiva para grupos específicos.

Mas antes de sair comprando suplementos, vale entender o que realmente sabemos e, principalmente, para quem esses resultados se aplicam.


Primeiro: o que é o carcinoma de queratinócitos?

O carcinoma de queratinócitos é o nome coletivo para os dois tipos mais comuns de câncer de pele: o carcinoma basocelular e o carcinoma espinocelular.

Juntos, eles representam a grande maioria dos casos de câncer de pele diagnosticados no mundo.

Diferente do melanoma ,que é menos frequente, porém potencialmente mais agressivo ,esses tumores costumam apresentar crescimento mais lento e altas taxas de cura quando diagnosticados precocemente.

Ainda assim, não devem ser subestimados. Em pacientes imunossuprimidos ou quando o diagnóstico é tardio, podem causar destruição importante dos tecidos e, em alguns casos, disseminação da doença.

O principal fator de risco continua sendo a exposição solar acumulada ao longo da vida.

Cada queimadura solar, cada ano sem proteção adequada e cada hora de exposição excessiva deixam marcas invisíveis no DNA das células da pele.

O que é a nicotinamida?

A nicotinamida é uma das formas da vitamina B3 (niacina).

Ela participa de processos fundamentais dentro das células, incluindo a produção de energia, o reparo do DNA e a resposta às agressões causadas pela radiação ultravioleta.

Você provavelmente já ouviu falar dela como niacinamida, muito utilizada em séruns e hidratantes.

É a mesma molécula.

A diferença é que, neste contexto, estamos falando da forma oral, utilizada como suplemento, e não da aplicação tópica presente nos produtos de skincare.

Seu perfil de segurança é bem estabelecido e ela é utilizada na medicina há décadas.


O que os estudos mostram?

A hipótese de que a nicotinamida poderia ajudar na prevenção do câncer de pele não surgiu por acaso.

Sabemos que a radiação ultravioleta provoca danos ao DNA das células da pele e reduz a imunidade local, favorecendo o desenvolvimento de tumores.

A nicotinamida participa justamente dos mecanismos envolvidos no reparo desse DNA e parece contribuir para preservar parte da resposta imunológica da pele após a exposição solar.

Em 2015, um estudo publicado no New England Journal of Medicine acompanhou pacientes que já haviam apresentado múltiplos carcinomas cutâneos.

Os participantes que utilizaram 500 mg de nicotinamida duas vezes ao dia apresentaram uma redução de 23% no surgimento de novos carcinomas de queratinócitos durante o período do estudo.

Mais recentemente, um estudo publicado na JAMA Dermatology, em 2026, avaliou a custo-efetividade dessa estratégia e a conclusão foi que a suplementação de nicotinamida pode representar uma abordagem custo-efetiva para pacientes com alto risco de desenvolver novos carcinomas cutâneos.


A ressalva que não pode ser esquecida

Esse talvez seja o ponto mais importante deste texto.

Os resultados são animadores, mas a nicotinamida ainda não é indicada para toda a população como estratégia de prevenção do câncer de pele.

A maior parte das evidências disponíveis envolve pacientes considerados de alto risco, como aqueles que:

  • já tiveram múltiplos carcinomas de pele;
  • são transplantados de órgãos sólidos;
  • utilizam medicamentos imunossupressores;
  • apresentam risco elevado para novos tumores cutâneos.

O editorial publicado junto ao estudo da JAMA Dermatology reforça que ainda são necessários estudos em populações mais diversas antes que essa estratégia possa ser recomendada de forma ampla.

Ou seja: a ciência é promissora, mas ainda está construindo essa resposta.


Para quem isso pode ser relevante?

Se você já teve carcinoma basocelular ou espinocelular — especialmente mais de uma vez — ou pertence a um grupo de alto risco, vale conversar com seu dermatologista sobre essa possibilidade.

Para a maioria das pessoas, entretanto, a principal forma de prevenção continua sendo a mesma:

fotoproteção diária.

Protetor solar.

Roupas com proteção UV.

Bonés e chapéus.

Evitar exposição solar excessiva.

A nicotinamida não substitui nenhuma dessas medidas.

Quando indicada, ela atua como uma estratégia complementar.


A prevenção do câncer de pele vai muito além do protetor solar.

Hoje entendemos melhor como a radiação ultravioleta danifica o DNA, como o sistema imunológico participa desse processo e quais pacientes podem se beneficiar de estratégias adicionais de prevenção.

A nicotinamida é um bom exemplo de como uma molécula simples, acessível e conhecida há décadas pode ganhar um novo papel à medida que a ciência evolui.

Mais importante do que acompanhar novidades é saber interpretá-las com cautela.

Nem toda descoberta muda a prática clínica imediatamente.

Mas algumas têm potencial para transformar o cuidado de pacientes que realmente apresentam maior risco.


📚 Para os curiosos de plantão

Este artigo foi elaborado com base em:

  • Chen AC et al. A Phase 3 Randomized Trial of Nicotinamide for Skin-Cancer Chemoprevention. New England Journal of Medicine. 2015.
  • Perez D et al. Cost-Effectiveness of Oral Nicotinamide for Keratinocyte Carcinoma Prevention. JAMA Dermatology. 2026.
  • Abraham I et al. Editorial: Nicotinamide for Keratinocyte Carcinoma Chemoprevention — Do We Truly Know? JAMA Dermatology. 2026.

⚠️ Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e não substitui avaliação médica individualizada. Consulte sempre um dermatologista.

Dra. Ana Carolina Madia
Dermatologia Clínica & Tricologia
CRM-SP 182.593 | RQE 120.682