Já atendi pacientes que usaram antifúngicos por meses sem nenhuma melhora. A unha continuava espessa, descolada e praticamente igual ao início do tratamento. E a frustração aumentava a cada retorno.
O motivo? Não era onicomicose. Era psoríase ungueal.
Esse cenário se repete com frequência nos consultórios de dermatologia e tem uma explicação simples: as duas condições podem ser clinicamente muito parecidas, mas o tratamento é completamente diferente.
É exatamente por isso que confirmar o diagnóstico faz toda a diferença.
O que é a psoríase ungueal?
A psoríase é uma doença inflamatória crônica imunomediada que afeta principalmente a pele, mas também pode comprometer as unhas. Estima-se que até 80% dos pacientes com psoríase apresentem alterações ungueais ao longo da vida.
E existe um detalhe que costuma surpreender muitos pacientes: a psoríase pode acometer as unhas mesmo sem lesões visíveis na pele.
Ou seja, a unha pode ser o primeiro ou até o único sinal da doença.
Isso torna o diagnóstico ainda mais desafiador. Sem placas cutâneas para orientar o raciocínio clínico, a alteração ungueal isolada frequentemente recebe o diagnóstico de “fungo”, e o tratamento inadequado acaba sendo iniciado.
Como a psoríase afeta as unhas
A psoríase pode comprometer tanto a matriz ungueal quanto o leito ungueal, produzindo diferentes alterações clínicas. Dependendo da estrutura acometida, a unha pode apresentar depressões, manchas, espessamento, descolamento ou pequenas hemorragias sob a lâmina.
As alterações mais comuns são:
Pitting ungueal:
Pequenas depressões na superfície da unha, como se alguém tivesse feito pequenos furos com uma agulha. É um dos achados mais característicos da psoríase ungueal.
Onicólise:
Separação da lâmina ungueal do leito, geralmente iniciando pela borda livre da unha.
Mancha em óleo (ou mancha salmão):
Área amarelada ou alaranjada sob a unha, lembrando uma gota de óleo.
Hiperqueratose subungueal:
Acúmulo de queratina sob a unha, deixando-a espessa e elevada.
Hemorragias em estilhaços:
Pequenas linhas avermelhadas ou enegrecidas sob a lâmina ungueal.
Como a onicomicose se apresenta
A onicomicose, infecção causada por fungos, também pode provocar:
- espessamento da unha;
- coloração amarelada ou esbranquiçada;
- onicólise;
- hiperqueratose subungueal.
É justamente essa semelhança que faz com que as duas doenças sejam frequentemente confundidas.
Existe ainda outro detalhe importante: psoríase ungueal e onicomicose podem coexistir no mesmo paciente. Ou seja, ter psoríase não exclui a possibilidade de uma infecção fúngica associada.
Por isso, o diagnóstico correto é fundamental antes de iniciar qualquer tratamento.
Os exames que fazem a diferença:
Antes de tratar qualquer alteração ungueal, o ideal é confirmar o diagnóstico.
Alguns exames ajudam nesse processo:
– Exame micológico direto:
É o exame inicial para identificar a presença de fungos na unha.
– Clipping ungueal:
Consiste na análise microscópica de um fragmento da unha. Além de ajudar na identificação de fungos, também pode revelar alterações compatíveis com psoríase.
Em alguns casos, a biópsia ungueal também pode ser necessária para esclarecer o diagnóstico.
Tratar sem confirmar a causa da alteração é um erro relativamente comum e pode custar tempo, dinheiro e atrasar o tratamento adequado.
Mas então, qual é o tratamento da psoríase ungueal?
A psoríase ungueal tem tratamento, e as opções evoluíram bastante nos últimos anos.
Nos casos mais leves, geralmente são utilizados medicamentos tópicos, porém, quando há comprometimento importante das unhas, impacto funcional ou associação com artrite psoriásica, podem ser indicados tratamentos intralesionais, sistêmicos ou imunobiológicos.
A escolha do tratamento é sempre individualizada e depende da gravidade do quadro, da presença de acometimento cutâneo ou articular e das características de cada paciente.
O que fica dessa conversa…
As unhas podem revelar muito mais do que imaginamos.
Alterações persistentes que não respondem ao tratamento antifúngico merecem ser reavaliadas. O diagnóstico correto é o primeiro passo para indicar o tratamento adequado.
Se você tem psoríase ou convive há meses com uma unha alterada e sem melhora vale a pena conversar com um dermatologista.
Às vezes, o problema não é “só um fungo”.
Referências
- Arruda ACC, Silva ACOD. Diagnóstico diferencial das alterações ungueais: uma revisão prática.
- Journal Archives of Health, v.6, n.4, 2025. Silva PMC, Velho GC. Onicomicose e Psoríase Ungueal.
- Revista da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia, 73(2), 2015. Anais Brasileiros de Dermatologia. Importância da biópsia tangencial no diagnóstico da psoríase ungueal. 2024.
⚠️ Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica individualizada. Consulte um dermatologista.
Dra. Ana Carolina Madia
CRM-SP 182.593 | RQE 120.682
